Acontece Gramado

Uma segunda-feira destas, antes da confirmação de bandeira vermelha, marquei um café com a Macela Muttoni. Entre aquela pesquisa para sabermos que lugar estaria aberto, caímos na Velha Bruxa. Pisciana que sou, cheguei meia hora antes do marcado, certa que estava no horário.

Para completar a bateria do celular estava acabando, ou seja, só deu para mandar um “oiii, cheguei, vou pedir um chocolate quente”e o celular apagou.Foi eu pegar o carregador, olhar para o lado na busca de uma tomada e logo veio um garçom se oferecendo para carregar o celular.

Bom, como tinha chego meia hora antes e estava sem o mundo virtual a minha disposição, fui obrigada a olhar para o mundo real.

Culpa da Marcela, só pode ser coisa dela mesmo. Escreveu uma coluna aqui no Acontece sobre as coisas de Gramado e agora ela marca comigo aqui na Velha Bruxa, justo aqui!

Olho para frente e vejo ali aquela mesma mesa que todos os domingos nos encontrávamos para dividir uma Mariazinha antes do cinema. Saudosismo de doer, ainda mais para quem gosta de comida como eu.

Chega o meu chocolate quente e nada da Marcela, ela vai vir na hora certa. Ahhh, este chocolate quente…

É julho, a Velha Bruxa deveria estar lotada, com fila de espera, mas está com mesa sim e mesa não sendo ocupadas por conta do distanciamento. Olho para as mesas, não reconheço ninguém, talvez um casal que eu estou na dúvida, mas quem reconhece as pessoas com estas máscaras ? Acho que todos são turistas, menos aquele casal, tenho quase certeza eu os conheço.

Eu já sei que a bandeira vai ficar vermelha e que tão cedo eu não vou voltar na Velha Bruxa e já me bate aquela tristeza. Acho que todos estão com o mesmo sentimento, medos das incertezas e das inconstâncias.

Posso comprar o chocolate quente para fazer em casa, vai ficar maravilhoso, ando até melhorando na cozinha, acho que me atreveria a inventar uma receita nova, mas não vai ser a mesma coisa do que o chocolate que eu estou tomando agora sentada aqui, olhando a Borges de Medeiros no mês de julho.

Não é e eu nem vou tentar. Quero voltar aqui, quero o sorvete com cobertura, mesmo no frio desgraçado. Quero encontrar a turma e dividir uma banana Split. E vai ter fila de espera, a gente vai reclamar da demora em conseguir a mesa e vai fazer festa quando o garçom chegar.

Mas por outro lado, está muito difícil, estamos perdendo pessoas que tinham as suas e faziam parte da memória afetiva de outras pessoas. Com as suas comorbidades elas seguiam as suas vidas e ajudaram Gramado a ser uma cidade da memória afetiva de tantas outras pessoas que a gente não tem como mensurar.

Não tenho como não citar o jovem, que foi jovem demais, que perdeu outro amigo jovem demais. Do amigo que perdeu o amigo cedo demais. Perdas por conta ou não de uma pandemia. Do dia que escrevi a coluna sentada na Velha Bruxa, até o dia da revisão, infelizmente os casos e os óbitos aumentaram assustadoramente.

É certo que não seremos os mesmos depois disso, e o que vamos lembrar e como vamos seguir as nossas vidas? Que memórias vão permear a gente?

Não sei, mas espero que eles não tenham ido em vão sem nos ensinar alguma coisa sobre o tempo que a gente tem aqui.

Chega a Marcela:
– E aí amiga!

Fecho meu caderninho e olho para ela:
– Sua danada, por sua causa acabei de escrever a coluna desta semana.

“Comecei a trabalhar aos 14 anos porque queria ser independente. Entrei na faculdade de Comércio Exterior, depois mudei para administração, mas pelo 5º semestre abandonei. Fiz Moda na Perestroika e atualmente curso Sociologia. Tenho apreciações diversas, interesso-me por assuntos variados e parei de tentar encaixar-me e passei a aceitar que sou assim, fora do padrão e movida pela paixão.”
Contato: [email protected]

1 comentário em “Karen Dinnebier: Memória Afetiva

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