Acontece Gramado

“Nota sinestésica”

Vamos fazer uma esfoliação dos seus pés. desejo que você perceba que até mesmo nós, podemos mudar a pele, a textura e que mesmo que você esteja “endurecido”, um pouco de açúcar pode ajudar. Pegue uma colher de açúcar cristal e um pouquinho de óleo de coco, passe em seus pés em movimentos circulares. Se possível faça em cima de uma toalha ou pano macio e depois coloque os pés em uma bacia com água morna. (aproveite).

Com a mudança pra casa nova, uma planta “estranha”, um caule cheio de carocinhos me chamou atenção. Passei o verão a observando. De vez em quando parava em frente a ela e parecia que ia dar frutos. Cheguei a conclusão que era uma árvore de Marmelo.

Mas que planta“ esquisita”,  murmurava eu sozinha. 

A Feiúra da planta temperamental. Créditos: Divulgação.

As folhas meio duras, grossas, em tons de verde escuro e vermelho. Os frutos como bolotas verde escuro, quase preto, grudadas ao caule. Um dia resolvi arrancar um deles, puxei com força e não consegui, desisti da planta. Cheguei ao cúmulo de fotografar e ficar comparando com fotos da internet para ver se conseguia descobrir, mas não consegui.

O verão passou com ela fechada, parecia emburrada. Com a vinda do outono, as folhas começaram a cair, e a coitada da planta que já lá não era das mais bonitas, ficou ainda pior. Um dia tomando café, sai lá fora de casa com minhas pantufas e fiquei olhando aquela árvore. Eu sou teimosa, parecia que eu tinha que descobrir o porquê da feiura de uma planta me chamar tanta atenção.  Pesquisei no google:  árvore de marmelo jovem. Minhas esperança se esvai, não era. Fiquei mexida com o fato de não conseguir descobrir. Cada pessoa que chegava lá em casa eu pedia: –  Tem ideia de que árvore é essa? 

Aqueles caroços grudados, sem muito formato e agora sem folhas. Tão diferente que se faz única e na frente da minha janela. Como sou a primeira a acordar lá em casa, tem aquele momento de abrir a janela e ver o dia chegar, e essa árvore geralmente está comigo. Parece como um lembrete que a vida é  como é. Nem todos os dias são árvores de sombras, flores ou de frutos. Alguns dias e momentos da vida são isso: árvores cheias de “bolotas” que a gente não sabe necessariamente o que fazer.

São os nossos incômodos. As respostas têm de ser construídas com tempo. As definições que não vem prontas. Não são plantas rápidas de uma estação só, São os tempos da nossa vida que vem cheio de cascas, cores escuras, folhas grossas, esses que não tem flores cor de rosa simples que qualquer vento leva, esses tempos são os de “bolotas” caroçuda que ninguém arranca, porque pertencem aquele local.

São esses períodos, bem como essa planta que nos ensinam as lições mais importantes sobre o tempo. Pouco sabemos o que precisamos. E pra que importa saber? Talvez sentir?  Nenhum dia se repete mais sob o nosso céu. As estações, a temperatura, tudo é uma orquestra que faz um ciclo da vida acontecer diante de nossos olhos, num movimento que mexe as nuvens de leste a oeste, e traz o vento do norte pro sul, e mesmo diante de nossas “janelas” é tão invisível, que só percebemos as mudanças e continuamos buscando as definições, sem muitas vezes contemplar o passar das horas, sem fechar os olhos e sentir o tempo passar. Fixamos os olhos no “caroço” do caule, que deveria ter flor.

Buscando conclusões e respostas, nomes e definições para tudo, para situações, pessoas e até para as plantas. Ficou tão fácil saber qual é o sintoma da nossa “doença”, como se abrir uma janela em um site de pesquisa fossemos ter a resposta para quase tudo. Mas a minha resposta eu não encontrei, e então a vida me deu a maior e melhor resposta que poderia me dar: o passar do tempo.

Com o início dos dias mais frios percebi que a árvore da frente da minha janela ficou cada vez mais “caroçuda” e feia. Um dia de manhã tive até vontade de abraçar ela. Parecia doente.Vieram as chuvas e eu tomava meus chás, chimarrão olhando pra ela. Imóvel.

Nessa semana de manhã, num dia muito frio, quando voltava do trabalho de a pé, correndo e com os olhos pra baixo, quando passei diante de casa, algo me chamou atenção diante da neblina. E foi assim que a gente se conheceu.

Eu parei embaixo de chuva para conhecer ela, por que teve que ser no tempo dela, e foi em choque que eu descobri o nome da minha planta esquisita. Como que se a vida fazendo uma brincadeira comigo, ou uma piada dos “anjos”, a minha flor preferida do mundo, nasceu daquele caroço. 

Flores de Magnólia Branca surgiram das bolotas, como que em presente em meio a neblina. Sentia correr em meus olhos, lágrimas quentes, daquele sentimento bonito que a gente sente, não quando descobre algo em janela alguma na internet, mas quando o “tempo” cumpre a missão de ensinar, da paciência.

Fiquei parada, encharcada, embaixo da árvore, tão grata por não ter descoberto antes as respostas. Uma planta tão delicada, óbvio e lógico precisa de uma proteção muito forte. Uma casca dura. E então tudo fez sentido. Tão bom ser surpreendida pela vida, pelos ventos contrários que não foram na direção das minhas buscas. No tempo certo, a camada de proteção pode romper e deixar romper o mais bonito que a vida pode nos oferecer. 

Minha magnólia temperamental, valeu a pena cada segundo te esperar.

Crônicas e histórias cotidianas sensoriais
“Acredito que podemos ler, estimulando mais que um sentido. Por isso, em mais de 18 anos de profissão, me apaixonei pelo processo de escrever levando o leitor a usar além da visão, outros estímulos sensoriais.

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1 comentário em “Marcela Muttoni: A Feiúra da planta temperamental

  1. Marcela e Flávio, que linda mensagem sobre a planta. Dá-me forças para viver, continuar, pois dia20 perdi a minha filha mais velha para a covid .

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