Essa semana, ao que tudo indica, São Pedro esqueceu o Rio Grande do Sul no forno e enfrentamos adversos 37° na Serra Gaúcha, a temperatura digna de desmaiar o Batista (não, eu não consegui evitar essa piada).

Os veranistas que me perdoem mas, venho por meio desta escrever uma crônica reclamação – se é que esse estilo existe. Se não existe, o invento e pergunto: quem em sã consciência gosta do calor? E dos mosquitos? Aos otimistas, que sempre perguntam da cervejinha gelada a beira mar, enfatizo: eu não tomo cerveja e também não gosto de praia.

Só das isoladas, sem música alta, superlotação e beach clubs. Curiosamente, eu já morei na praia. Ela ficava a apenas um quilômetro da minha casa e, para chegar nela, era necessário atravessar uma diversidade de habitats: uma rua asfaltada com casas, um bosque, um mangue e as dunas. Para mim, sem dúvida o caminho era mais divertido que o destino e eu fiz, durante alguns anos, belíssimas fotos nesse trajeto, tanto de verão, como de outono ou inverno.

Ao chegar na praia, ela quase sempre estava deserta. Cheia de gente, quinze pessoas. Tinha espaço para jogar taco, estender a toalha ou não fazer nada. Enquanto as crianças corriam e tomavam banho, eu geralmente me sentava para contemplar a imensidão do mar, de quem sinceramente, morro de medo. Um afogamento aos 12 anos de idade – tempo em que ainda gostava da praia – justifica minhas justificativas todas: não sou obrigada.

Idas e vindas dos sábados a tarde, carregando duas crianças, baldinhos, conchas e coragem, ficou para trás a praia, pois agora moramos na serra. Mas se você perguntar se eu amo o inverno, lhe responderei tampouco. Levantar da cama de manhã cedo, coragem para tomar banho, neblina e a chuvinha fina que molha até pela tangente, de forma alguma penso ser agradável. Direi que quero mesmo é estar na primavera, flores por todos os lados, temperatura amena, brisa suave e a neutralidade de um xampu de bebê.

E como o que o ser humano faz de melhor é reclamar, sento agora para escrever esse texto, debaixo do calor do cão, costas colando no espaldar da cadeira, sonhando com a noite em que voltarei a ligar o meu lençol térmico.

Crônica de Camila Gasparin da Fonseca
Profissão: Alquimista
Idade: 40 anos
Cidade: Canela
E-mail: [email protected]
*O Acontece Gramado publica as crônicas da turma da Oficina Santa Sede – Crônicas de Botequim, de 2022.

5 comentários sobre “Crônica: Sonhos de uma noite de inverno

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