Acontece Gramado

Se tem uma coisa nessa vida que eu amo é fazer trilha. Aos quatro aninhos eu já chorava para poder seguir meu irmão Carlos, o Calo, como eu chamava, em suas aventuras mata adentro. Ele vivia se embrenhando nas vegetações fechadas de minha cidade natal, Caxias do Sul, atrás de sua paixão: “caçar passarinho”.

Seu amor pelo desafio de capturar esses fugazes animaizinhos era avassalador, tanto que chegou ao ponto de construir com suas próprias mãos um enorme viveiro onde reunia as mais diversas e extraordinárias espécies de pássaros por ele capturados. Na época não se falava na ilegalidade disso. Eu, pequenino, ficava estonteado com a beleza e a variedade dos bichinhos. Adorava bater na tela para vê-los agitados, voando e fazendo aquela barulheira toda.

Eu admirava esse irmão, ele era tão aventureiro, corajoso e autoconfiante. Sabia o lugar exato para pôr suas pequenas armadilhas para capturar minúsculos pássaros em uma gigantesca floresta. Ele foi minha primeira referência do arquétipo do herói e desejei ser assim quando crescesse. Na verdade, queria mesmo era crescer logo pra deixar de ser “pequeno demais pra ir junto”.

Naturalmente, isso aconteceu e aos poucos fui permitido a participar de muitas expedições e aventuras mata dentro, passei da infância à adolescência embrenhado no mato, nadando em lagoas, fazendo acampamentos, conectado com as árvores, as plantas e seus pequenos habitantes, mas nunca capturei nenhum passarinho, no fundo gostava deles assim livres – eram mais felizes em sua natureza solta.

Cheguei à fase adulta assim, aventureiro, ambicioso, desbravador e autoconfiante. Lentamente, as telas da vida econômica de adulto começavam a me cercar. Aos poucos a necessidade de atender às exigências da vida em sociedade como estudar para se formar, bens e contas a pagar, festas para ir, roupas para comprar, carro, status, enfim, tanta coisa para dar conta, somados aos meus erros, fracassos e escolhas ruins, começaram a formar a arapuca da autodesconfiança. Por fim, aos 26 anos, com o falecimento de minha mãe, eu fui totalmente aprisionado em um viveiro de estafa, desesperança e impotência frente a vida.

Dois anos se passaram e me vi assim, sobrecarregado, sem perspectivas e com as pontas das asas cortadas – eu não sabia mais como voar. Num último impulso de forças que ainda me restavam, resolvi lançar-me num vôo maluco de renovação – decidi me mudar para uma cidade que eu nunca estivera antes: Florianópolis. Minha esperança era poder recomeçar e reencontrar meu eu aventureiro. Tudo iria dar certo!

Chegando aqui, cheio de expectativas e sonhos e, embora 500 km distante, sem me dar conta, aos poucos, fui reconstruindo outro viveiro. Obviamente, fiz como os pássaros engaiolados, decidi cantar minha triste canção e tentar conviver bem no meu limitado, até que confortável, ambiente. Nele, passei diversos anos enxergando somente os defeitos das minhas plumas, duvidando na força das minhas asas e me sentindo não mais merecedor da visão do topo das árvores. Mas, lá no fundo, eu ainda sentia que podia ser mais do que eu era e que precisava aprender sobre como resgatar minha autoconfiança! Li livros de autoajuda, participei de eventos, desenvolvi competências, mas nada surtia além de um efeito temporário.

A verdade é que eu havia perdido o caminho da trilha. E assim eu permaneci até três anos atrás quando me entreguei a um processo de interiorização do ser que me levou à descoberta de minha “bússola interior” e com isso o reencontro com meu poder potencial. E o que aprendi compartilho com você agora: O primeiro passo para entrar na trilha da autoconfiança é entender que autoconfiança, expressividade e autenticidade são estados naturais do ser. Enquanto estivermos tentando ser autoconfiantes não seremos, porque não precisamos nos esforçar para ser algo que já somos, basta se reconectar com esse estado natural através do desbloqueio de potenciais.

Para entender melhor esse conceito, basta lembrar de você quando criança ou até mesmo adolescente, observe como você era alegre, despreocupado, espontâneo, chorava e ria com a mesma facilidade e quando via algo que queria simplesmente ia lá e pegava, não havia limites. Esse é o seu estado natural – a coragem, a alegria e a certeza de sua plena capacidade.

Resgatar a autoconfiança é como percorrer uma trilha após o inverno, a falta de uso pode ter fechado o caminho, mas a beleza das paisagens continuam lá. E esse processo pode ser doloroso, pois há espinhos de traumas e galhos de situações passadas que podem machucar, além disso, requer persistência para subir passo a passo, mas vale a pena quando se volta a contemplar a linha de um novo horizonte. Portanto, voltar a ser autoconfiante é um resgate que exige a limpeza das ervas daninhas que fecharam o caminho.

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Analista Comportamental, Life Coach, Monitor de Inovação da USJ e idealizador da Reeducação Positiva.
Um potencializador de indivíduos, equipes e resultados. 
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1 comentário em “Estreia Claudio Barboza: A Trilha da Autoconfiança

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