Acontece Gramado

Nasci em uma família muito pobre devastada pela bebida e a violência. Um dos primeiros sentimentos que experimentei na vida foi o medo. Praticamente cresci com ele. Meu pai era alcoolista e toda vez que bebia se tornava violento, ele bebia duas ou três vezes por semana.

Ao chegar do bar, discutia com minha mãe e sempre se tornava agressivo. Lembro perfeitamente do pavor que invadia nosso lar toda vez que a noite chegava. Aos quatro aninhos lembro de minha irmã interrompendo a alegria e as brincadeiras com a seguinte frase: “Ele tá chegando.” Entrar para o quarto e não sair de lá por nada era a instrução. E, assim que ele chegava, a discussão começava. A casa era de madeira e tinha apenas dois quartos, um era o meu e de minha irmã e o do lado era onde a briga acontecia. Perdi as contas de quantas vezes isso aconteceu durante minha infância.

Consequências disso? Cresci e me tornei um jovem cauteloso e retraído, pra não dizer medroso. Tais características já moldavam meus comportamentos desde pequeno. Lembro-me de que, em muitas das minhas aventuras de pré-adolescência, em que eu e meu melhor amigo, meu sobrinho dois anos mais novo, o Ismael, andávamos pelas ruas da cidade e nos arriscávamos em passeios distantes que muitas vezes iam até o anoitecer, sentíamos certa fome e a solução era pedir frutas nas casas dos outros, ou, muitas vezes “pegar emprestado”.

Ismael era atrevido, ousado, autoconfiante e sempre achava que ia dar certo. Ele me convencia de que íamos conseguir. Eu sempre tentava dissuadi-lo de não fazermos aquilo, pensando nas probabilidades e consequências de algo dar errado. Por fim, eu era convencido e invadido pela excitação do risco, mas sempre insistia que deveríamos ser cuidadosos.

Então ele pulava a cerca, entrava no terreno alheio e pegava as frutas; eu ficava vigiando para ver se vinha alguém, vivenciando a experiência à distância, tremendo e fervendo por dentro – eram momentos tensos que pareciam durar uma eternidade.

Com o tempo, Ismael já não pedia mais para eu ir apanhar as frutas, já me dizia pra ficar vigiando que ele iria. E esse se tornou o meu papel: aquele que vigia, que pensa nas precauções, que tem mais facilidade de pensar no que pode dar errado, em vez do que pode dar certo. Por ser o que mais se arriscava, Ismael ficava com os frutos maiores e mais saborosos.

Este é o produto, na melhor da hipóteses, de uma criança que cresce rodeado pelo medo e a violência doméstica: um adulto cauteloso, que busca segurança, com autoconfiança limitada, foco no negativo e uma bela dose de experienciamento distante.

Em outras palavras, um adulto mediano que raramente viverá grandes aventuras, pois tem uma capacidade controlada de se expor ao risco.

Passei muitos anos assim, sem falar o que realmente pensava, sem me sentir parte capaz de contribuir com a ação, escolhendo sempre as posições de quem fica para dar o alerta, protegido pela distância, sem fazer parte daqueles que agem de verdade. E, obviamente, sem direito a comer os melhores frutos. Verdade seja dita: quem toma a frente da ação pode usufruir do melhor.

Sei que todos nascemos confiantes, alegres, curiosos e por mais que existam fatos e fatores que minam nossa autoconfiança natural, eles podem ser ressignificados. É possível resgatar nossa autoconfiança, aumentar a ousadia e ter mais poder de ação. Algo fundamental na minha jornada de auto-resgate foi cultivar novos padrões mentais para ter mais coragem, não desistir de meus sonhos e vencer o medo instalado em meu sistema. E isso tem feito imensa diferença no que tenho conquistado.

Hoje, decidi colocá-los no “papel” e disponibilizá-los livremente. A partir da próxima semana iniciarei uma série inédita de 10 textos em que explicarei cada um dos conceitos que chamei de mandamentos – Os Dez Mandamentos da Autoconfiança. Eles ajudam a vencer o medo, ser mais ousado e aumentar o poder de agir.

Já no próximo texto falarei sobre algo muito importante para aumentar a autoconfiança, que é um pouco do que já fiz hoje: Honrar nossa história.

Tenho certeza de uma coisa: o mundo é de quem faz.

Portanto, se queremos mudar algo que não está bom em nossa vida, seja relacionamento, emprego ruim, financeiro ou apenas deixar um rastro de sucessos e aventuras de nossa existência única, precisamos deixar de ser aqueles que se contentam em ficar vigiando, enquanto outros se deliciam com os melhores frutos, precisamos nos tornar aqueles que colhem o fruto das oportunidades diretamente da árvore da vida.  

Analista Comportamental, Life Coach, Monitor de Inovação da USJ e idealizador da Reeducação Positiva.
Um potencializador de indivíduos, equipes e resultados. 
Insta: @reeducacao.positiva
Site: www.reeducacaopositiva.com.br

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