Acontece Gramado

Como ponto de partida, quero contar uma situação pela qual passei. Há uns dois anos, eu e meu ex-namorado estávamos segurando as mãos um do outro para nos despedirmos. Era início de tarde e estávamos numa avenida movimentada de Porto Alegre.

Enquanto estávamos de mãos dadas, passou um carro buzinando e proferindo algo que não consegui distinguir. Só parou e seguiu caminho após soltarmos as mãos constrangidos.

O ato de dar as mãos é inerente ao ser humano, ou melhor dizendo, aos animais.

Lontras dão as mãos, assim como pinguins e até elefantes, cada um a sua maneira. Dar as mãos, pelo viés científico, traz conforto e segurança. Dar as mãos, socialmente falando, representa amor, cuidado, carinho, bem querer, encorajamento. Só coisas boas, não é?

Quando seguramos a mão de alguém, criamos um elo, nos conectamos, tornamo-nos mais fortes, seja quando somos crianças e apertamos fortemente as mãos de nossos pais numa situação de medo, seja quando pegamos na mão da pessoa amada para dar um passeio.

Assim como todo ato humano, o entrelaçar de dedos exprime significado. Quando vemos duas pessoas de mãos dadas na rua, logo assumimos que estas pessoas estão juntas ou são familiares. E por quê? Exatamente por causa do significado que o ato carrega: quem se dá as mãos se ama.

Agora vamos à análise do ocorrido. Eu, homem, estava de mãos dadas com outro homem. Obviamente, o acontecido foi uma situação clara de preconceito. A simbologia do amor não é para casais homoafetivos. A sociedade não os vê, primeiramente, como casais, muito menos como pessoas dignas de expressarem o seu amor, carinho. O nosso amor ofende a maioria das pessoas.

Faço uma pergunta a quem está um relacionamento heteronormativo: você já sentiu medo de expressar o seu amor?

Eu já. Infelizmente, perdi as contas de quantas vezes larguei a mão de alguém por não me sentir seguro ou me sentir acuado. É triste, mas às vezes isso vai ser o fator determinante entre apanhar ou não, ser ofendido ou não, e, muitas vezes, viver ou não.

Diante de tudo isso, para nós que somos da comunidade LGBTQIA+, dar as mãos tem um significado a mais, o de resistência. Ao dar as mãos mostramos que estamos aqui, que existimos e somos dignos de respeito. O nosso amor existe, é igual a qualquer outro, e temos o direito de expressá-lo, tal qual qualquer outra pessoa tem. Mais que um ato de amor, é um ato político. Sejam felizes, não cedam a política opressora e do medo.

Deem-se as mãos.

Jovem estudante de direito, canceriano e idealizador do projeto Orientando
@jvcostacoutinho

1 comentário em “João Victor Coutinho: Dar as mãos

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