Acontece Gramado

Que lugar fácil é esse – o lugar do outro. Fazendo uso, de figuras clássicas na literatura ocidental, como Jesus e seus Apóstolos, como foi divertido e incômodo quando alguns anos atrás eu me confrontei com o livro “ O homem mais inteligente da História”, de Augusto Cury.

Nele o autor narra através do perfil psicológico de seus apóstolos, um novo olhar sobre uma das histórias mais conhecidas da humanidade – a de Cristo.  A interrogação de dois destinos tão diferentes para um ato que teve a mesma “raiz” – a traição.

Pedro trai Jesus por três vezes, o negando em todas, fingindo que não o conhecia e Judas o vendeu por algumas moedas. Pedro se torna o líder dessa igreja. Judas se suicida.

Pedro tinha em sua essência a impulsividade, era explosivo. Emocional. Errou, caiu, chorou, sofreu, se arrependeu, compreendeu. Humano. Teve trajetória humana, que hoje só com muita catequese ou interesse muitos de nós vão lembrar. 

Mas essa conversa é pra falar de outra pessoa. O sensato dos sensatos – Judas. Judas era o tesoureiro. Era racional, eloquente, coerente. Judas não suportou o que fez. Não foi o julgamento alheio que fez com que ele tirasse a própria vida – foi o julgamento íntimo, dele com ele mesmo. 

O medo paralisante. A vergonha. O caos emocional. Por alguns instantes me senti escutando uma história nova pela primeira vez e então entendi tudo. Se Jesus sempre soube que Pedro o trairia e que seria vendido por Judas, compreendeu que o amor vinha do livre arbítrio de permitir que cada qual, escolhesse sua própria história. 

Amor não é mudar a força. Amor é a liberdade de amar, mesmo quando o outro erra. Amor é a forma mais humana de aceitar, que mesmo os erros fazem parte daquela pessoa. Mas a culpa.

A dor do erro, dilacera a alma. Mesmo Judas sendo o Apóstolo mais preparado, foi justamente por esse atributo emocional foi o que mais se culpou. O que mais se condenou a ponto de acreditar que não merecia mais a vida.

Quantos de nós somos Pedro. Que perdemos o controle. Que duvidamos de tudo. Que somos tomados pela ira. Que negamos sentimentos por medo. Que olhando nos olhos de quem amamos ou amigos, os traímos por pequenas, esquecendo favores, gratidão. E mesmo assim, isso só diz de nós, o quanto mais precisamos de amor. E quantos somos Judas, consumidos pela vergonha, pelo senso de responsabilidade que nos faz vilões de nossas próprias históra, com o pior dos olhares e dedo em riste contra nós – o da gente mesmo.

Quando fechei o livro estava tão impactada, mas tão impactada que me senti abrindo a cortina de um palco pela primeira vez. Não existe vilões e mocinhos, existe a forma como lidamos com o que nos aflige, nos tira a paz. Com ira, batendo boca, brigando e gritando, correndo e indo embora. Ou engolindo tudo e acreditando que tudo é por falha sua. 

Tive empatia por aquele Judas, sozinho, desesperado, sem conseguir ouvir ninguém que não seus pensamentos. Uma pessoa introvertida, calculista, metódica, O homem de confiança de Cristo. Que muitas vezes aconselhou Jesus que tudo aquilo era uma loucura, assim como um bom gerente. Muitas vezes gente, como a gente. Por proteção. Por precaução. O amor se faz vilão.

Pedro arrependido, um pescador sem muitos recursos internos, chorando, com raiva de si mesmo.Vi muitos outros apóstolos como pessoas mais normais, uns tentando ajudar, uns brigando, uns chorando. Mas eu vi Judas, sozinho, pensando e refletindo o que podia ter feito diferente. Judas chama toda a responsabilidade pra si.

Pedro, faz de sua dor a pedra da igreja. Vira o fundador da instituição que imortalizou a história de Jesus Cristo, sendo o primeiro Papa da Igreja. Já Judas, o grande técnico da equipe, tendo sua história pautada em um último ato, justamente naquele que ele menos quiz -o de traidor.

Houveram outros traidores, mas o único que perdeu pra si mesmo e não se ergueu através do erro foi mais julgado e condenado. Judas eu passei a te entender e fiquei com um sentimento de humanidade. 

Crônicas e histórias cotidianas sensoriais
“Acredito que podemos ler, estimulando mais que um sentido. Por isso, em mais de 18 anos de profissão, me apaixonei pelo processo de escrever levando o leitor a usar além da visão, outros estímulos sensoriais.

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