José escrevo essa carta para te contar que me lembrei de você. Pensei em como você estaria, se cresceu, se ganhou algum sapato. Você ainda vive perambulando pelas ruas?

Todo dia quando eu coloquei peça sobre peça de roupa e mais parecia um cabide ambulante de casacos, calças e meias, lembrei-me de você e do inverno passado, de bermuda e pés descalços. Deus sempre protege as crianças meu bem! Eu acredito firme em propósito que sim!

Não sei em que mundo louco a gente está José, e eu não consigo entender muita coisa, acho que a maioria das pessoas também não. Mas a maioria de nós, acredite, é boa. Não sei o que acontece que ainda não conseguimos estancar nossas mazelas maiores, essas sociais, e de desigualdade que permitem que alguns tenham casacos de cor diferentes para combinar com as botas e outros como você, corram de pés descalços e sem roupa, com apenas três anos.

Ano passado falei de você nessa coluna. Contei que você sempre me pedia chocolate, lá na rodoviária, lembra? Muitas pessoas me falaram que choraram quando eu contei. Mas José, eu nem vou mais naquele lugar, mas suponho que você deva ir. Já deve ter uns quatro aninhos e se virar melhor. José me promete que não tira os sapatos?

Aquele dia eu correndo atrás de você lembra.  – Pare de pedir comida menino e peça meias! E você brincando de esconde-esconde! Aquilo grudou em meu coração como uma bala 7 belos, doçura e tristeza na mesma medida. Como que eu entrei naquele ônibus com meus filhos em casa me esperando, enquanto você corria sem roupas! Eu me perguntei muitos anos!

Esses dias que o frio gelou a espinha, que a gente congelou ao redor do fogo, e que nossos pés não esquentaram nem em nossas camas amontoadas de cobertas e com lençol térmico, como que a gente consegue dormir, como que a gente consegue reclamar, sem tem tantas pessoas, tantas crianças sem roupa, sem calçado ali fora.

Tudo bem, isso aqui não tem intenção de fazer apologia ao assistencialismo, para isso existem os órgãos competentes, e se faz campanhas, se faz muito pelo outros nas nossas cidades, no nosso país. Mas, e o José?

José é um menino indígena, pequenininho, desses que a gente vê, e finge que não. Nas nossas rodoviárias quase sempre tem alguns “Josés” deitados no chão, com alguns cobertores rotos.

Não me interessa o contexto, os motivos e as explicações que levam as pessoas seja ela de qual cultura a estarem em tais condições. Eu só estou falando de uma criança, e isso não muda de qual cor, etnia ou formato de olho ela tenha. E também não muda o fato de existirem medidas que acolham essas pessoas. O José ainda existe e não muda a realidade dele. Onde erramos?

José todos os dias, eu me lembro de você. E eu sempre lembrarei. Meus casacos ficam mais pesados e minhas luvas me incomodam. Por que eu me sinto péssima de continuar colocando esse monte de roupas e penso que você esta ai, correndo e querendo chocolates, e nem dando bola pra esse frio congelante.

José você fez tanto por mim, que eu nunca terei como te agradecer. Aquece meu coração e me mostra o quanto eu possuo.  Você sempre feliz, mesmo com frio, e possuindo tão pouco, ,via como muito, correndo nesses dias frios pedindo chocolates. Teu coração faz verão José. E é esse verão que um dia, vai mudar a cara desses invernos infinitos que não mudam o mundo teu.

Com carinho

Marcela, a tia do chocolate.

Crônicas e histórias cotidianas sensoriais
“Acredito que podemos ler, estimulando mais que um sentido. Por isso, em mais de 18 anos de profissão, me apaixonei pelo processo de escrever levando o leitor a usar além da visão, outros estímulos sensoriais.

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