Acontece Gramado

Desde quinta-feira recebi inúmeras mensagens de amigos querendo saber minha opinião sobre o tema. Isso porque, além de editor do Acontece Gramado, sou presidente do Quero Quero SC (primeiro time inclusivo da Serra Gaúcha), e organizador da Copa Internacional de Futsal LGBTQIA+ que já teve duas edições em Gramado recebendo milhares de pessoas de toda a América do Sul (Evento que não contou com o apoio do Governo do RS).

Em um primeiro momento é preciso louvar a atitude do governador do RS, Eduardo Leite, de assumir sua orientação sexual em rede nacional. O contexto é: Eduardo Leite governa o estado considerado mais machista e homofóbico do país. Uma decisão destas nunca é fácil e quebra inúmeros paradigmas. Com certeza, sua atitude irá se refletir na iniciativa de muitas decisões e também nas discussões a respeito desta minoria tão calejada. Assumir sua orientação, por si só, é um ato político.

Eduardo Leite assumiu sua orientação sexual nesta semana. Créditos: Divulgação.

O Brasil é o país que mais mata LGBTs e este fato já nos motiva a discutir este tema diariamente. Nestes três dias analisei matérias, comentários, posições, críticas e todo o contexto que envolveram esta decisão do Governador pois como dizem os mais antigos “nem tudo que reluz é ouro”.

Não acho que Eduardo Leite foi oportunista, cada um tem seu momento para assumir e isso deve ser respeitado acima de tudo. Porém, Leite é figura pública e, com certeza, tem a real noção dos questionamentos que viriam após sua entrevista. Sobre isso, não quero expor exatamente o que eu penso sobre o momento de sua decisão pois acho totalmente irrelevante a minha opinião neste contexto. Guardo ela pra mim e para os mais próximos.

Mas, mesmo assim, tomo a liberdade de listar alguns questionamentos super importantes que tenho e acho que devem ser levados em conta neste momento.

1 – Fátima Bezerra (PT), governadora do Rio Grande do Norte, é a primeira governadora assumidamente gay a governar um estado do Brasil. Eduardo Leite é o segundo (afirmação).

2 – Eduardo Leite não “virou” gay agora. Há anos já é de conhecimento na comunidade gay sua orientação, inclusive com vários boatos de possíveis namorados desde quando era prefeito de Pelotas.

3- A comunidade gay não “engole” até hoje, o fato de Leite ter se unido a Bolsonaro na campanha para Governador do RS, abraçando seus temas e ideais de extrema direita totalmente contrários e opositores às causas da comunidade. Suas bandeiras e ações, até aqui, entram em total contradição com as palavras atuais de “o amor vai vencer o ódio“. No mínimo foi omisso como figura pública que é há vários anos.

4 – Por que o anúncio chega só agora? Justamente no momento em que começa a ser decidido quem será o candidato do PSDB à presidência nas eleições de 2022 (E Leite se coloca como candidato há meses)? Justamente em um momento em que o seu partido (PSDB) encontra enormes dificuldades em conseguir se articular e encontrar um nome forte e, com apelo nacional, como uma possível terceira via para disputar com Lula e Bolsonaro?

5 – O PSDB nunca foi um partido que conversou com as minorias no país. É um partido elitista, extremamente focado nos interesses dos ricos e poderosos, e jamais trabalhou em favor de qualquer causa forte relacionada ao tema. Nem no Brasil, e muito menos no Rio Grande do Sul. As minorias deste país sempre foram “salvas” e socorridas pelos partidos de esquerda e principalmente pelo PT que trouxe avanços enormes durante a gestão de Lula e Dilma na proteção da vida dos cidadãos.

6 – Leite não passa a ser um governador melhor por ser gay, nem pior! Continua sendo o governador de um estado quebrado e endividado, e que tem muito a fazer. O RS atravessa a mais grave crise de sua história.

7 – Leite passa sim a ser o “queridinho” de milhões de brasileiros que foram impactados por sua mensagem, com viés político ou não, mas que é palpável em números com mais de um milhão de seguidores conquistados nas redes em apenas dois dias.

8 – É interessante olhar para dentro do Governo do RS nestes três anos de Leite e avaliar que ações e iniciativas foram feitas em em favor da comunidade LGBTQIA+?
– Como este público foi atendido pelo Governo durante a pandemia?
– Como os eventos foram ajudados ou fortalecidos?
– Quantas pessoas da comunidade fora retiradas da rua e da situação de vulnerabilidade social?
– Quantas campanhas de prevenção a DSTs foram colocadas na rua pelo Governo?
– Quantas ações focadas no fortalecimento do turismo gay-friendly?
Pelos meus levantamentos, até agora, nada foi feito de relevante neste segmento no Rio Grande do Sul desde a entrada de Leite no poder. Aliás, a Coordenadoria de Diversidade Sexual, que faz parte da secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos está totalmente sucateada e sem orçamento até onde eu sei (já estive lá e o que vi não foi nada bom).

9 – É importante destacar que para abraçar a Diversidade é preciso um mínimo de ações no dia a dia. Não ações superficiais e “da boca pra fora”, e sim ações concretas. Qual o investimento em reais do Governo Gaúcho no segmento nestes três últimos anos? A comunidade LGBTQIA+ do RS já está calejada de tanto lutar e erguer sua voz, e nunca ser ouvida. E trago aqui ícones de luta como a artista e ativista Gloria Crystal que há décadas luta por esta causa no RS sem ser ouvida pela classe política. Além dela, temos centenas que seguem “anônimos em suas lutas”.

10 – Antes de querer conquistar o Brasil, não seria mais coerente que Eduardo Leite se aproximasse de quem realmente é relevante neste segmento dentro de sua cidade, capital e estado?

Por fim, feitos alguns dos meus questionamentos, é importante salientar mais uma vez o quanto este caso foi simbólico. Opinião cada um tem a sua e, temos visto isso de forma exacerbada nas redes sociais, de quinta-feira para cá. Que este seja um momento não só de busca por likes e popularidade, mas que resulte em ações concretas em favor desta causa.

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Jornalista – Editor e fundador dos canais Acontece Gramado
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