Leia ouvindo: Música “Minha Vida” – Rita Lee

Recebi o mês como um dia de chuva. Que começa a se armar horas antes. A gente sente aquele calor, sabe que ela vem, e fica na espreita. Olha pro céu e continua. E em segundos um redemoinho de vento bate em nossas janelas. Assovia mudanças, assovia o movimento do tempo, das horas. Quando o céu e a terra se encontram. Mês de despedida começa com finados. Uma “sabidice” do nosso calendário ocidental, começamos a despedida pelas saudades.

As saudades que são as mais duras. As que não tem solução. As saudades dos que se fisicamente não compartilham mais com a gente uma tarde, uma manhã, uma noite ou uma risada. Saudades de um filho, de uma mãe. Saudade de um irmão, de um amigo. Saudade de um pai. Saudade de um avô. Saudade de um amor.

Saudade que quase sempre é um abafamento interno. Saudade do que se viveu. Do que se deixou de viver. Do que não foi dito. Do que não foi vivido. Do que poderia ter sido. As mortes representam tudo o que poderíamos ter feito e não fizemos. E nos apontam o que vamos fazer com o que ficou. A morte é a corda que escapa dos dedos. E quando  fecha nosso “tempo” por dentro, como o prenúncio dos nossos temporais mais duros.

Quando a saudade vem chegando, e as despedidas se tornam inadiáveis, a fé é um pequeno guarda chuva. Assim, quando o medo de algo importante cair, está na outra ponta da corda e tudo, por uma fração de segundos pode cair, quebrar, desaparecer, quanta força criamos para segurar a outra ponta.  Como quando saímos do carro com mais sacolas que suportam os dedos, e sentimos quase “gangrenar” os dedos, para não fazer, duas “voltas”.

Quanto mais segura, mais ela corta. Saudade guardada é um abafamento grande. Saudade compartilhada é permitir que a outra ponta caia. É uma sacola por vez. é chuva leve. É o guarda chuva virado. É a certeza que quando você corre na chuva, tem chuva na frente também. 

Saudade que dói é temporal de vento. Desses que batem nossas partes íntimas. Desses que fazem nossos “telhados” voarem. Desses que encharcam nossa alma, como quando a chuva entra pelas frestas. Morte e vida andam lado a lado, como o calor e a chuva. Como um depende do outro para ter sentido, para fazer a vida acontecer.

Essa semana fui abatida pela partida de um grande homem. Não era íntima. Mas ele era alguém que eu respeitava. Professor, pai, diretor de escola. Lutador. De uma família próxima, perdeu seu irmão muito jovem e ao lado dos pais construiu uma história de superação. 

Essa semana ele partiu. Jovem. Como quando a corda cai do outro lado com um baú de tesouros. Eu me senti levada por uma rajada de vento. Me perguntei: – Como sentir a exaustão dos que nos cercam?  Como sentir quando a “corda” dos que nos rodeiam está pesada demais? Como saber que é abafado demais para pouca chuva?

Como interpretar a dor alheia? Como dizer para quem está aqui, você é muito forte! Você é o sentido para tanta gente. Eu estou aqui!

Desaprendemos a andar desarmados e deixar a chuva vir. Sinto tanto pelos filhos, pelos netos. Pelos pais. Sinto tanto que parece que estou vivendo um temporal que nem é na minha casa. Mas sinto como se a chuva fosse aqui. Os bons andam cansados. Exaustos.

Mas mesmo quando uma pessoa  morre, quando ela foi tão gigante, ela deixa um rastro de tanta coisa semeada, que o temporal de sua partida, germina com força sua história. Profunda. A morte germina o legado de uma vida dos “fortes”.

E como quando um grande temporal acontece, o abafamento passa. A chuva lava a terra, mexe com os nossos “canteiros”, com nossa superfície. Encharca nossas vísceras. Molha as roupas do varal. Cria poças nos nossos olhos. E depois de tanto chorar, é como se limpassem de dentro para fora, nossas janelas do mundo.

E se você perceber bem, geralmente depois de uma chuva de dia quente, se você olhar pro horizonte encontrará o arco íris. Esse efeito mágico no céu só é possível com sol e chuva. E dizem que atrás do arco íris tem  o pote de ouro. Talvez seja uma maneira lúdica de falar, para você aprender a olhar a água que cai dos céus e lembrar que sempre o sol está logo ali.

A um palmo do seu nariz!

Crônicas e histórias cotidianas sensoriais
“Acredito que podemos ler, estimulando mais que um sentido. Por isso, em mais de 18 anos de profissão, me apaixonei pelo processo de escrever levando o leitor a usar além da visão, outros estímulos sensoriais.
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