Marcela Muttoni

Marcela Muttoni: Manual do anti amor: Sobre barquinhos e pontes

Escute: Mesmo que seja eu/ Erasmo Carlos

Se o coração deu uma cambaleada, fuja. Fuja para as colinas. Desligue a playlist. Não olhe para o céu. Nem busque estrelas ou flores coloridas. Os sonhos que começam frutificar naquele solo do coração que você jurou, nunca mais mexer, não olhe para eles. Não sonhe. Não tenha esperança no amanhã. Nem busque os beijos que te tirem segundos de consciência. Busque o seguro, o aperto de mão amigo que te leve para o amanhã atravessando a rua sabendo exatamente para onde vai.

A amizade às vezes se disfarça de amor. Quase sempre ela vem com a comodidade de ter alguém para as fotos, para a convenção social. Para a aceitação e validação do sucesso. Os beijos e abraços que se encontra conforto muitas vezes ali não estão. Os formatos de relacionamento mudaram. Cabe a cada um saber seu limite. Mas no manual anti amor, isso é essencial. A superficialidade.

No amor, assim como na vida, a lógica te leva até onde a maioria vai. O óbvio está ao alcance dos olhos. A pessoa certa, muitas vezes, é de alguns dias. É a certa para aquele momento. E então conhecemos os amores líquidos do “ Bauman”, aquele filósofo polones que nos lembra que descartável também é amor. 

As palavras do amor natural, descrito por Darwin e pela teoria da evolução, onde os genes escolhem os parceiros mais aptos à procriação não se encaixam nas histórias e contos conhecidos pela atual geração de quase 40 anos, onde príncipes salvam princesas. Pelo viés da cultura teológica, da igreja católica tão disseminada na cultura ocidental, o casamento é um sacramento. Protegeu e protege patrimônios ao longo de décadas e impediu que esposas tivessem filhos fora do casamento. Pensando no amor como negócio, os formatos de organizar essa bagunça pelas instituições ao longo do século, foi criar mecanismos para “segurar” os parceiros em uma instituição que protegesse as promessas.

Mas se tudo isso é fato. Se o amor é na verdade assim como no reino animal, uma escolha da natureza humana para corrigir a genética da próxima geração. Nosso corpo reconhece o parceiro mais apto a copularmos e assim garantirmos que se perpetue características da nossa espécie. E se a igreja institucionalizou o sentimento, como forma de dar sentido e proteção aos pares. Antes da igreja, mulheres e terras eram saqueadas. Onde foi que mesmo podendo escolher qualquer parceiro, mesmo não tendo religião muitas vezes, escolhemos alguém? Podendo partir, optamos em ficar?

 Escolhemos podendo ser livres. Escolhemos mesmo pensando em não ter filhos. Escolhemos o que sentimos. Escolhemos com a terapia em dia ou com todas as faculdades mentais nos apontando para outra direção. Decidimos não pegar o voo ou pegar o voo. Escolhemos mudar de emprego ou cidade. E escolhemos não pelo que o outro nos oferece como lógico, mas sim pela emoção que nos causa. O amor romântico que muitos acreditam conhecer, ocorre poucas vezes na vida. Ele vem com a força da natureza biológica de Darwin e com a esperança que todos os antepassados estavam certos e que sim, o amor pode e deve ser para sempre. E vou te contar um segredo, será.

Costumo pensar no amor como barcos e pontes. Alguns amores nos auxiliam a atravessar períodos da nossa história. Nos levam a outra margem. Sua importância é de algumas décadas. Nos fazem crescer, às vezes sofrer, não pelo que são, mas pelos desejos que criamos e projetamos. 

Muitas vezes aquela relação é perfeita e crível pelo período que existiu. Nos fez ser quem somos. Foi a mão na travessia, e quando chegamos ao outro lado, saímos do barco. Mas esse barco é meu! Como deixar ele partir? O que eu farei sem o barco? E então você percebe que talvez já esteja em seu destino, podendo seguir ali sozinho. 

Ou se depara com uma imensa ponte que nunca sairá daquele local e que representa, que através dela você sempre voltará a visitar o seu passado, nunca esquecendo de onde veio, mas que te leva para frente, pro desconhecido, e ela permite a travessia, a volta, o retorno, o recomeço e o avanço. As pessoas “pontes” permitem ver os barcos atracados, partindo e chegando. Mas as pontes permanecem.

Alguns de nós com muita sorte partimos de pontes. Alguns nunca nem se atreveram a embarcar no barco. Muitos ainda estão olhando a travessia pelos seus faróis. Vêem tudo de um ângulo mais alto, e de vários pontos de vista. A solidão não é um estado de permanência, mas uma escolha. Tem os que estão sozinhos e nunca conseguiram encaixar seu projeto de vida em outro. E são felizes. Tem os que buscam incansavelmente, pulam do barco, atravessam a nado e chegam em pontes que não são suas. Se desviam de sua rota olhando para barcos alheios, vidas e trajetos que não são seus. 

Algumas travessias são mais longas, de uma vida. Outras têm tempestades, perdas. Noutras, o barco se perde, o barco se desmonta. E nos faz aprender a remar na correnteza até encontrar outro barco, que ainda está longe de ser nosso porto. Barcos que nos salvam.

O amor é a resposta. Não a cômoda. Não a oportunista que vê vantagens e facilidades. A que te acomoda. O amor de verdade não é posse, é travessia. Tem pessoas que fingem carinho e afeto, buscando seguir o protocolo do que acreditam que deveriam ser. No manual anti amor, busque o raso. O seguro. Qualquer travessia que te tire de “terra firma” será amor, mesmo que de dias. E mesmo que o seu pra sempre seja diferente do pra sempre dos contos de fadas, é amor mesmo que mude. Mesmo que dure uma vida ou a semana inteira. No manual anti amor, mude a rota do que te faz crescer. Cancelar a agenda. Dos carinhos que tocam a alma. Que desnude suas dores. 

E vou te contar um segredo: às vezes a travessia será sozinho. O amor próprio é a travessia mais demorada. Muitas vezes os amigos estão lá na ponte, gritando e aplaudindo, esperando você chegar.

Amor e esperança andam juntinhos. Acho até que o nome desses barcos são esperança. E da ponte, fé.

Crônicas e histórias cotidianas sensoriais
“Acredito que podemos ler, estimulando mais que um sentido. Por isso, em mais de 18 anos de profissão, me apaixonei pelo processo de escrever levando o leitor a usar além da visão, outros estímulos sensoriais.
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Marcela Muttoni: AI QUE VERGONHA!

Em tempos de tanta exposição, o julgamento disfarçado, amizades e interesses maquiados de empatia, a sinceridade e as pessoas de verdade viraram artigos de luxo, raros.

As palavras têm o poder de nos ferir, somente quando damos a elas esse poder. Mas atualmente, quanto medo da vergonha. O que vão pensar? Vão rir?  Não estou bem, apaga!  Não quero aparecer porque falo mal. Como eu escuto essas frases. E me vejo nelas.

Um dos dias mais tristes da minha vida foi na aula de Tv e Vídeo quando me vi pela primeira vez na televisão, em um exercício de reportagem televisiva. Eu chorei muito. Era horrível. Minha voz. Decidi que nunca trabalharia com video naquele dia. Alguns poucos anos depois tive que gravar programas de rádio e mesmo com vergonha, fiz. Com medo de rirem de mim, porque eu mesma me julgava. O medo era meu. E agora, no lançamento da empresa,a orientação de começar a mostrar minha personalidade através de vídeos, falar, para o meu público se conectar comigo. Não dormi por 1 mês. Os primeiros stories eu gravava e chorava de vergonha. Me achava feia, achava ruim. Faz parte do play. 

Temos vergonha do real. Vergonha da própria aparência. Do próprio nariz.. Vergonha do peito que amamenta filhos. Vergonha da mulher que não é a do amigo, que já fez 5 plásticas, malha e passa o dia cuidando do corpo, enquanto a sua trabalha. Vergonha de aparecer na internet sem fugas. Com bom humor, com naturalidade e sem máscaras. Vergonha de ser a gente mesmo. Isso começou a parecer absurdo.

Mas queremos a aceitação, a validação, de quem? Pra quem? Validar quem somos? O que devemos ser? Todos iguais? Todos devemos ter um mesmo comportamento padrão sobretudo, nos vestirmos como um todo, temos a mesma boca, a mesma testa e os mesmos dentes. Também devemos postar as fotos com os filtros que serão bem aceitos e que nos façam parecer bem sucedidos. Aliás, o que é ser bem sucedido?

O carro da marca dos sonhos de 1% das pessoas no mundo? Ter uma pessoa que é “meia boca” e não faz seu coração vibrar mas é aceitável num padrão instagramável. Num mundo onde normalizamos mulheres trabalharem 18h por dia e criarem filhos sozinhas, se por um acaso tiverem a infelicidade de terem que se divorciar, por abusos, violência ou desamparo. A violência disfarçada de preocupação é repulsiva. Que vergonha!

A violência silenciosa da família. A violência dos omissos. A violência dos que consentem, aos que sabem e nada fazem. A violência dos que falam pelas costas, mesmo sabendo a verdade sem defender. Os sensores de boa conduta, né.

Dizem que o mundo dá voltas. Dizem também que Deus é justo. E busco acreditar nisso tudo pela ótica que não existem vítimas e nem algozes. Somos um conjunto. Mas o preço que se paga, não é o mesmo para todos.

Normalizamos a falta de educação como opinião. Não é. E nem toda a opinião é válida. E nem tudo que pensamos pode e deve ser dito. Opinião sem reflexão, bom senso e crítica é maldade, desinformação ou crime. Crítica construtiva é aquela que a pessoa consegue ouvir e adequar de forma respeitosa, todo resto é seu ego, presunção e seu senso de auto importância, acreditando que é superior aos outros.

Mas vivemos o tempo do “esgoto social”, onde o abismo entre a verdade e o tolerável permite que qualquer pessoa diga o que acha, sem certificar ou validar essa verdade, sem ser punida por isso. E a vergonha passa a ser do que tem menos força, da vítima ou do que consideramos o “errado”. A vergonha usada como arma. Humilhamos para nos sentir no poder. Através do riso do outro, estamos certos. Somos melhores, maiores. 

As violências atuais vem maquiadas de discussões, de comentários em grupos de famílias, em conversas íntimas que sempre acabam chegando aos ouvidos de todos. Do que devemos ter vergonha?

Vergonha da falta de gratidão., dos que esquecem a mão estendida, a gentileza, o favor, o apoio. Mas, vergonha do trabalho que eu não entendo, mesmo sendo aquele trabalho que sustenta uma casa e crianças? 

 Vergonha da amiga blogueira que tá pelo menos ocupando o tempo com algum objetivo, mesmo que seja em prol da vaidade dela mesmo. Está prejudicando quem? E quantas pessoas que ajudam outras pessoas? Mas vergonha de falar ou julgar os outros, os filhos dos outros, a vida dos outros, mesmo que a sua casa tenha um teto de vidro bem grande, não é motivo de vergonha?

A vergonha é uma semente que nasce morta. Nutra as boas sementes que fazem de você único. Nem todos compreenderão, mas faça sua parte, num mundo com tanta maldade, está mais do que na hora, de perdermos a vergonha de falar a verdade e de sermos bons, já que os maus não tem vergonha,  de serem sem vergonha. Literalmente! 

Obs: Seja um baita sem vergonha de ser bom e fazer o bem no que fizer, mas não passe vergonha no débito e nem no crédito, bom senso e autocrítica ainda são moedas valiosas e que fazem toda a diferença.

Marcela Muttoni: Sinto Muito!

O dado de que alterações no comportamento dos animais sinalizam, com horas ou dias de antecedência, eventos como os terremotos já era conhecido. Especialmente noticiada foi a disparada dos elefantes asiáticos para terras altas por ocasião do terremoto seguido de tsunami de 26 de dezembro de 2004. Muitas vidas humanas foram salvas graças a isso. Perturbações na ionosfera sobre a área ao redor do epicentro. Os elefantes sentem e ouvem pelos pés, mesmo tendo suas orelhas enormes.

Eles em nenhum momento duvidam do instinto natural. Eles conseguem sentir a vibração de um terremoto, de um tsunami até 12 dias antes e simplesmente fogem. Em que momento paramos de sentir?  Em que momento o nosso instinto foi bloqueado para dar espaço somente para o ver? Para as conclusões absolutas?

Sentir esse pequeno córrego que escorrega por dentro das veias, nos fazendo vivos. Que quando o coração dispara nos faz enrubescer. Ficar quentes ou frios. Como é bom se sentir vivo. Sentir medo, caos ou alegria. Como é feliz aquele que dança a música que toca no seu coração. Ou acolhe seu silêncio. 

Deus tem diversos nomes, mas a forma que ele nos encontra é a mesma, é pelo sentir. Quando sentimos Deus vivo em nós, sabemos. Alguém pode nos falar sobre amor, podem nos falar sobre amor, sobre tristeza e até podem nos contar sobre o dia mais feliz da sua vida. Mas o dia que você sentir, aí sim, você saberá, antes, sequer imagina.

Sentir é o que nos faz únicos. O corpo quente quebrando contra uma onda gelada, um beijo de saudade. Um desafio superado. Uma doença vencida. E eu que nasci com meu coração na ponta do nariz, que lembro das pessoas e dos dias pelos cheiros. Que tenho minha memória associada ao meu olfato, já me peguei chorando no supermercado quando alguém passou um com perfume que lembrava alguém querido. Ou tomar banho com um sabonete e viver uma memória de um carnaval.Com é bom sentir. Não estar anestesiado. Bom sentir a dúvida, as inseguranças. O desejo, o viço e a raiva, que impulsiona tanto a nossa vida.

Sentir os pés cansados e desejar dias de pés descalços. Ouvir o coração em silêncio e sem barulho de som, mas através do nosso sexto sentido, a intuição.

Sinto muito, sinto tanto. Desejo que a gente só sinta, mais. E assim como os elefantes asiáticos, saiba ouvir quando sentir e se precisar fugir, fuja. Se precisar disparar e se precisar voltar, volte. Mas que a gente não paralise pelo tamanho de nossas orelhas, que talvez só sirva para nos abanar ou lembrar de afastar o zumbido das moscas, que orbitam por aí.

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Marcela Muttoni: Abafamento

Leia ouvindo: Música “Minha Vida” – Rita Lee

Recebi o mês como um dia de chuva. Que começa a se armar horas antes. A gente sente aquele calor, sabe que ela vem, e fica na espreita. Olha pro céu e continua. E em segundos um redemoinho de vento bate em nossas janelas. Assovia mudanças, assovia o movimento do tempo, das horas. Quando o céu e a terra se encontram. Mês de despedida começa com finados. Uma “sabidice” do nosso calendário ocidental, começamos a despedida pelas saudades.

As saudades que são as mais duras. As que não tem solução. As saudades dos que se fisicamente não compartilham mais com a gente uma tarde, uma manhã, uma noite ou uma risada. Saudades de um filho, de uma mãe. Saudade de um irmão, de um amigo. Saudade de um pai. Saudade de um avô. Saudade de um amor.

Saudade que quase sempre é um abafamento interno. Saudade do que se viveu. Do que se deixou de viver. Do que não foi dito. Do que não foi vivido. Do que poderia ter sido. As mortes representam tudo o que poderíamos ter feito e não fizemos. E nos apontam o que vamos fazer com o que ficou. A morte é a corda que escapa dos dedos. E quando  fecha nosso “tempo” por dentro, como o prenúncio dos nossos temporais mais duros.

Quando a saudade vem chegando, e as despedidas se tornam inadiáveis, a fé é um pequeno guarda chuva. Assim, quando o medo de algo importante cair, está na outra ponta da corda e tudo, por uma fração de segundos pode cair, quebrar, desaparecer, quanta força criamos para segurar a outra ponta.  Como quando saímos do carro com mais sacolas que suportam os dedos, e sentimos quase “gangrenar” os dedos, para não fazer, duas “voltas”.

Quanto mais segura, mais ela corta. Saudade guardada é um abafamento grande. Saudade compartilhada é permitir que a outra ponta caia. É uma sacola por vez. é chuva leve. É o guarda chuva virado. É a certeza que quando você corre na chuva, tem chuva na frente também. 

Saudade que dói é temporal de vento. Desses que batem nossas partes íntimas. Desses que fazem nossos “telhados” voarem. Desses que encharcam nossa alma, como quando a chuva entra pelas frestas. Morte e vida andam lado a lado, como o calor e a chuva. Como um depende do outro para ter sentido, para fazer a vida acontecer.

Essa semana fui abatida pela partida de um grande homem. Não era íntima. Mas ele era alguém que eu respeitava. Professor, pai, diretor de escola. Lutador. De uma família próxima, perdeu seu irmão muito jovem e ao lado dos pais construiu uma história de superação. 

Essa semana ele partiu. Jovem. Como quando a corda cai do outro lado com um baú de tesouros. Eu me senti levada por uma rajada de vento. Me perguntei: – Como sentir a exaustão dos que nos cercam?  Como sentir quando a “corda” dos que nos rodeiam está pesada demais? Como saber que é abafado demais para pouca chuva?

Como interpretar a dor alheia? Como dizer para quem está aqui, você é muito forte! Você é o sentido para tanta gente. Eu estou aqui!

Desaprendemos a andar desarmados e deixar a chuva vir. Sinto tanto pelos filhos, pelos netos. Pelos pais. Sinto tanto que parece que estou vivendo um temporal que nem é na minha casa. Mas sinto como se a chuva fosse aqui. Os bons andam cansados. Exaustos.

Mas mesmo quando uma pessoa  morre, quando ela foi tão gigante, ela deixa um rastro de tanta coisa semeada, que o temporal de sua partida, germina com força sua história. Profunda. A morte germina o legado de uma vida dos “fortes”.

E como quando um grande temporal acontece, o abafamento passa. A chuva lava a terra, mexe com os nossos “canteiros”, com nossa superfície. Encharca nossas vísceras. Molha as roupas do varal. Cria poças nos nossos olhos. E depois de tanto chorar, é como se limpassem de dentro para fora, nossas janelas do mundo.

E se você perceber bem, geralmente depois de uma chuva de dia quente, se você olhar pro horizonte encontrará o arco íris. Esse efeito mágico no céu só é possível com sol e chuva. E dizem que atrás do arco íris tem  o pote de ouro. Talvez seja uma maneira lúdica de falar, para você aprender a olhar a água que cai dos céus e lembrar que sempre o sol está logo ali.

A um palmo do seu nariz!

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Marcela Muttoni: Bungee Jump

Olhou o precipício. Mesmo amarrada a uma corda e algumas fivelas metálicas com parafusos à mostra, seu cérebro só sentia o vento que batia desalinhando alguns fios de cabelo que insistiam em grudar em seu lábio inferior. 

O vento vinha do norte. Olhou pra frente é só conseguia ver o vazio do horizonte distante. Os olhos que tinham aquele tom de caramelo queimado verdejava.  Uma mistura de luz que parecia que não permitia os olhos ficarem abertos.

Respirou fundo para levar um pouco de ar para o pulmão. Não conseguia.

O coração batia tão forte que não conseguia diferenciar o que era vento, batimento cardíaco ou eco. Sentia o barulho dentro da sua boca. Olhando para aqueles 30 metros abaixo de si, pensou em todas as possibilidades: o elástico arrebentar, o parafuso cair, o corpo não resistir a tanta emoção e infartar.

Sua cabeça viajava em pensamentos acelerados. Uma vertigem que fazia os tornozelos tremerem. Mãos suadas. Um suor frio.

Evitava olhar pra baixo, porque sentia cada pedaço do seu corpo tremer mais que gelatina. A emoção e o medo fazem todos os instintos de sobrevivência serem ativados. Perigo o corpo grita!

E como em um instante pensou em Deus. Nunca mais tinha rezado e nem acreditava em Deus, mas naquelas frações de segundo sentiu necessidade de chamar ele: – Deus eu tenho andado distante, mas eu sei que você me conhece. Sabe das minhas fraquezas, sabe das minhas dores e feridas. Mas segura esse elástico?  Se eu sair dessa, eu rezo.           

Lembrou que não sabia mais rezar? Pensou em porque não rezava.

E neste mesmo instante uma voz inconsciente surgiu como um rádio quebrado: livre arbítrio. Não é Deus que te faz pular, e sim você mesmo.

– Porquê pular? O que faz alguém arriscar a vida? Que respostas encontramos no limite do nosso medo? – Porquê estou pulando? Só conseguia pensar em loucura e Deus. Essas palavras se misturavam. Lembrou que muitos dizem que na eminência do perigo, é só você e Deus.

Que motivos fazem estar ali, confiando no Acaso, quando fomos criados para sobreviver. Vivenciar o pulmão se enchendo de ar? O corpo em risco? A emoção do encontro com Deus? Com medo? O que é real? Adrenalina? Pra que?

Em alguns segundos alguém falou: – chegou a hora. Pule! Segure suas mãos contra o peito e aproveite! As pernas paralisaram. Imóvel. Sentia duas pedras de concreto em cada um dos pés. Não conseguia nem respirar. Quiçá se mexer contra o precipício.

Como assim se atirar ? Como pular de uma ponte confiando numa corda? E o erro? A estatística? A falha?

E então lembra os motivos de estarmos em cima: ninguém chega lá em cima se não quiser de fato viver tudo que possa viver. Sentir os hormônios pulsarem. Colocar o corpo em estado vivo e não dormente. Viver emoções únicas que façam a vida ter um sentido, mesmo que seja vivendo o risco. A linha tênue entre o incrível e o absurdo.

Bem como um vinho degustado por alguém que não entende nada de uvas, assim é a vida, exige viver para apurar o paladar sobre o que provoca sentido e valor a experiência. É vivendo que se aprende a viver. É pulando muitas vezes, que se compreende o que nos paralisa. A tentativa faz evoluir. E no erro e acerto que ajustamos a rota.

É na tentativa de conhecer novos caminhos, surpresas e descobertas. Não somos o que queremos. Somos o que temos capacidade de construir. De destruir ou semear. Somos a decisão de dar um passo atrás ou um pra frente.

Olhou para os próprios pés. Ficar é seguro e garante tudo. Pular é encontrar um desconhecido de sentimento, problemas e consequências.  Tão mais fácil um passo atrás. O coração neste momento acelera tanto e a voz de Deus no ouvido: – segurança! Livre arbítrio. Só pula se quiser?

E neste instante o vento puxa todos os seus cabelos no rosto. Tranca os pulmões e em uma fração de segundos corre em direção ao desconhecido. Se agarra os parafusos de metal, pensa em Deus! Na família. E sente o vento a quilômetros cortar o corpo, a boca secar. O coração na boca. Pensa – vou Cair!

Um mix de desespero e pavor. Cortam o silêncio do nada. Olhos fechados, não tem coragem de abrir. E então sente o elástico e o solavanco. Tô viva!

Sente todos os dedos! Sente os lábios, o som. Sente até mesmo seu sangue correr por suas veias. Escuta seu coração e sua respiração. A quanto tempo não ficava em silêncio profundo.

Abriu os olhos e não acreditou no que via: o mundo de cabeça pra baixo. Uma tontura a fez levantar o pescoço.

Içada, puxada e já respirando olhando sua vida virada. E sorriu. Tudo fez sentido. Começou a ouvir o som de uma música que tocava dentro de si: um samba antigo. Percebeu as cores das pedras, o formato das folhas e até sentiu o calor do dia de sol.

Neste momento encontrou Deus: “- Oi! Valeu! Vou ter que rezar, né? “

E então fechou os olhos com força: obrigada por tudo pai! Pelo meu corpo, pela vida e por todas as possibilidades de me permitir perceber que a vida é mais que estar de olhos abertos. É viver. E disse Amém.

Cabelos na boca. Sorriso suado. Mas lá.

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Marcela Muttoni: Kamikaze

Tem frases e palavras que ficam para sempre. Um dia alguém me disse:
“- Você parece um kamikaze. Desliga esse motor, saia do avião!” 

E isso ficou guardado, para sempre.

“Kamikaze” é um termo em japonês que significa vento de Deus ou vento divino, e foi o nome atribuído aos pilotos de aviões japoneses que, carregando explosivos, promoviam ataques suicidas contra os navios, principalmente os porta-aviões, dos Aliados, em especial os estadunidenses. (Estados Unidos).

“Kamikaze” é um termo em japonês que significa vento de Deus ou vento divino.

Mas o  que é ser um kamikaze? 

Qual a linha que separa: amor, loucura ou sacrifício? Até onde podemos “lutar” em guerras que nem são nossas as transformando em nossa vida. 

Na época era como se eu estivesse me atirando inteira “ao mar” sem pensar muito. Para uma medrosa de altura e apaixonada por aviões que tentou por 4 anos entrar na aeronáutica, aquele foi um elogio, torto, mas era feito de uma coragem insana, de bravura que não sossega, de uma raiva e orgulho que escolhem o que defender e por quem escrever sua história. Era uma luta que eu não desistia. 

E eu já tive sim momentos kamikazes, em suas devidas proporções, e acredito que talvez você aí do outro lado também tenha. São aqueles segundos que passam uma vida na nossa frente, que a decisão é como uma lâmina, todos os lados vão se ferir. Tem que escolher a luta, a paixão ou a nossa causa.

Pessoas que sabem o que vai acontecer e mesmo assim embarcam no avião. Sabem o destino e o escolhem. Não são movidos pelas circunstâncias, pelo acaso. Não olham o céu ou a direção do vento. Tem um propósito que vai além. 

Nas guerras bem como nos assuntos do coração, geralmente existe uma causa maior: dois lados que tiveram histórias diferentes e que de repente encontram-se juntos em um mesmo espaço precisando deliberar e geralmente só conseguem se beijar.  Quando estamos apaixonados, perdidamente, não vemos o campo. A estratégia se anula. Muitas guerras foram perdidas e ganhas por amor.

Fácil é lidar com o tédio. Fácil o desencontro, a justificativa do erro. Mas e como explicar o que nos coloca em órbita estelar.  Como explicar o encontro, a verdade, a sinceridade. A conexão de olhar, de pele e de cheiro, de alma. Quando um kamikaze encontra outro kamikaze em uma guerra, são poucas as decisões que podem caber.

Quando o voo é em pleno solo. Encontrar os pulmões com oxigênio em queda livre e não localizar o manche. Um Kamikaze não precisa de manche. Quando o encontro com nosso medo, nosso céu acontece, os olhos não precisam estar abertos.

Ouvir a solidão,  olhar o pacifico e decidir sair do avião. Olhar o céu em silêncio e sentir o vento bater no rosto, com outrora dias de horizonte e mergulhos fatais em um oceano de guerra, lembra os dias que vivemos e os que ainda vamos viver. Kamikazes em queda livre e coração na boca. 

Manche na mão. 

Desligue o motor. Saia do avião. Kamikaze em solo observa seus pés no chão, mas seu coração ainda na imensidão de uma coordenada geográfica que não se explica, só sente quando os pés estão longe, bem longe do chão.

Como diz Gilberto Gil: “uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz”.

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Marcela Muttoni: “Ao José”

José escrevo essa carta para te contar que me lembrei de você. Pensei em como você estaria, se cresceu, se ganhou algum sapato. Você ainda vive perambulando pelas ruas?

Todo dia quando eu coloquei peça sobre peça de roupa e mais parecia um cabide ambulante de casacos, calças e meias, lembrei-me de você e do inverno passado, de bermuda e pés descalços. Deus sempre protege as crianças meu bem! Eu acredito firme em propósito que sim!

Não sei em que mundo louco a gente está José, e eu não consigo entender muita coisa, acho que a maioria das pessoas também não. Mas a maioria de nós, acredite, é boa. Não sei o que acontece que ainda não conseguimos estancar nossas mazelas maiores, essas sociais, e de desigualdade que permitem que alguns tenham casacos de cor diferentes para combinar com as botas e outros como você, corram de pés descalços e sem roupa, com apenas três anos.

Ano passado falei de você nessa coluna. Contei que você sempre me pedia chocolate, lá na rodoviária, lembra? Muitas pessoas me falaram que choraram quando eu contei. Mas José, eu nem vou mais naquele lugar, mas suponho que você deva ir. Já deve ter uns quatro aninhos e se virar melhor. José me promete que não tira os sapatos?

Aquele dia eu correndo atrás de você lembra.  – Pare de pedir comida menino e peça meias! E você brincando de esconde-esconde! Aquilo grudou em meu coração como uma bala 7 belos, doçura e tristeza na mesma medida. Como que eu entrei naquele ônibus com meus filhos em casa me esperando, enquanto você corria sem roupas! Eu me perguntei muitos anos!

Esses dias que o frio gelou a espinha, que a gente congelou ao redor do fogo, e que nossos pés não esquentaram nem em nossas camas amontoadas de cobertas e com lençol térmico, como que a gente consegue dormir, como que a gente consegue reclamar, sem tem tantas pessoas, tantas crianças sem roupa, sem calçado ali fora.

Tudo bem, isso aqui não tem intenção de fazer apologia ao assistencialismo, para isso existem os órgãos competentes, e se faz campanhas, se faz muito pelo outros nas nossas cidades, no nosso país. Mas, e o José?

José é um menino indígena, pequenininho, desses que a gente vê, e finge que não. Nas nossas rodoviárias quase sempre tem alguns “Josés” deitados no chão, com alguns cobertores rotos.

Não me interessa o contexto, os motivos e as explicações que levam as pessoas seja ela de qual cultura a estarem em tais condições. Eu só estou falando de uma criança, e isso não muda de qual cor, etnia ou formato de olho ela tenha. E também não muda o fato de existirem medidas que acolham essas pessoas. O José ainda existe e não muda a realidade dele. Onde erramos?

José todos os dias, eu me lembro de você. E eu sempre lembrarei. Meus casacos ficam mais pesados e minhas luvas me incomodam. Por que eu me sinto péssima de continuar colocando esse monte de roupas e penso que você esta ai, correndo e querendo chocolates, e nem dando bola pra esse frio congelante.

José você fez tanto por mim, que eu nunca terei como te agradecer. Aquece meu coração e me mostra o quanto eu possuo.  Você sempre feliz, mesmo com frio, e possuindo tão pouco, ,via como muito, correndo nesses dias frios pedindo chocolates. Teu coração faz verão José. E é esse verão que um dia, vai mudar a cara desses invernos infinitos que não mudam o mundo teu.

Com carinho

Marcela, a tia do chocolate.

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Marcela Muttoni: A Feiúra da planta temperamental

“Nota sinestésica”

Vamos fazer uma esfoliação dos seus pés. desejo que você perceba que até mesmo nós, podemos mudar a pele, a textura e que mesmo que você esteja “endurecido”, um pouco de açúcar pode ajudar. Pegue uma colher de açúcar cristal e um pouquinho de óleo de coco, passe em seus pés em movimentos circulares. Se possível faça em cima de uma toalha ou pano macio e depois coloque os pés em uma bacia com água morna. (aproveite).

Com a mudança pra casa nova, uma planta “estranha”, um caule cheio de carocinhos me chamou atenção. Passei o verão a observando. De vez em quando parava em frente a ela e parecia que ia dar frutos. Cheguei a conclusão que era uma árvore de Marmelo.

Mas que planta“ esquisita”,  murmurava eu sozinha. 

A Feiúra da planta temperamental. Créditos: Divulgação.

As folhas meio duras, grossas, em tons de verde escuro e vermelho. Os frutos como bolotas verde escuro, quase preto, grudadas ao caule. Um dia resolvi arrancar um deles, puxei com força e não consegui, desisti da planta. Cheguei ao cúmulo de fotografar e ficar comparando com fotos da internet para ver se conseguia descobrir, mas não consegui.

O verão passou com ela fechada, parecia emburrada. Com a vinda do outono, as folhas começaram a cair, e a coitada da planta que já lá não era das mais bonitas, ficou ainda pior. Um dia tomando café, sai lá fora de casa com minhas pantufas e fiquei olhando aquela árvore. Eu sou teimosa, parecia que eu tinha que descobrir o porquê da feiura de uma planta me chamar tanta atenção.  Pesquisei no google:  árvore de marmelo jovem. Minhas esperança se esvai, não era. Fiquei mexida com o fato de não conseguir descobrir. Cada pessoa que chegava lá em casa eu pedia: –  Tem ideia de que árvore é essa? 

Aqueles caroços grudados, sem muito formato e agora sem folhas. Tão diferente que se faz única e na frente da minha janela. Como sou a primeira a acordar lá em casa, tem aquele momento de abrir a janela e ver o dia chegar, e essa árvore geralmente está comigo. Parece como um lembrete que a vida é  como é. Nem todos os dias são árvores de sombras, flores ou de frutos. Alguns dias e momentos da vida são isso: árvores cheias de “bolotas” que a gente não sabe necessariamente o que fazer.

São os nossos incômodos. As respostas têm de ser construídas com tempo. As definições que não vem prontas. Não são plantas rápidas de uma estação só, São os tempos da nossa vida que vem cheio de cascas, cores escuras, folhas grossas, esses que não tem flores cor de rosa simples que qualquer vento leva, esses tempos são os de “bolotas” caroçuda que ninguém arranca, porque pertencem aquele local.

São esses períodos, bem como essa planta que nos ensinam as lições mais importantes sobre o tempo. Pouco sabemos o que precisamos. E pra que importa saber? Talvez sentir?  Nenhum dia se repete mais sob o nosso céu. As estações, a temperatura, tudo é uma orquestra que faz um ciclo da vida acontecer diante de nossos olhos, num movimento que mexe as nuvens de leste a oeste, e traz o vento do norte pro sul, e mesmo diante de nossas “janelas” é tão invisível, que só percebemos as mudanças e continuamos buscando as definições, sem muitas vezes contemplar o passar das horas, sem fechar os olhos e sentir o tempo passar. Fixamos os olhos no “caroço” do caule, que deveria ter flor.

Buscando conclusões e respostas, nomes e definições para tudo, para situações, pessoas e até para as plantas. Ficou tão fácil saber qual é o sintoma da nossa “doença”, como se abrir uma janela em um site de pesquisa fossemos ter a resposta para quase tudo. Mas a minha resposta eu não encontrei, e então a vida me deu a maior e melhor resposta que poderia me dar: o passar do tempo.

Com o início dos dias mais frios percebi que a árvore da frente da minha janela ficou cada vez mais “caroçuda” e feia. Um dia de manhã tive até vontade de abraçar ela. Parecia doente.Vieram as chuvas e eu tomava meus chás, chimarrão olhando pra ela. Imóvel.

Nessa semana de manhã, num dia muito frio, quando voltava do trabalho de a pé, correndo e com os olhos pra baixo, quando passei diante de casa, algo me chamou atenção diante da neblina. E foi assim que a gente se conheceu.

Eu parei embaixo de chuva para conhecer ela, por que teve que ser no tempo dela, e foi em choque que eu descobri o nome da minha planta esquisita. Como que se a vida fazendo uma brincadeira comigo, ou uma piada dos “anjos”, a minha flor preferida do mundo, nasceu daquele caroço. 

Flores de Magnólia Branca surgiram das bolotas, como que em presente em meio a neblina. Sentia correr em meus olhos, lágrimas quentes, daquele sentimento bonito que a gente sente, não quando descobre algo em janela alguma na internet, mas quando o “tempo” cumpre a missão de ensinar, da paciência.

Fiquei parada, encharcada, embaixo da árvore, tão grata por não ter descoberto antes as respostas. Uma planta tão delicada, óbvio e lógico precisa de uma proteção muito forte. Uma casca dura. E então tudo fez sentido. Tão bom ser surpreendida pela vida, pelos ventos contrários que não foram na direção das minhas buscas. No tempo certo, a camada de proteção pode romper e deixar romper o mais bonito que a vida pode nos oferecer. 

Minha magnólia temperamental, valeu a pena cada segundo te esperar.

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“Acredito que podemos ler, estimulando mais que um sentido. Por isso, em mais de 18 anos de profissão, me apaixonei pelo processo de escrever levando o leitor a usar além da visão, outros estímulos sensoriais.

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Marcela Muttoni: Inundação

O que são lembranças?

Tombos de bicicleta. Comer cereja do mato. Arrebentar os chinelos em corrida. Comícios. Vitórias. Derrotas. Histórias regadas a mate doce. Ver os filhos grandes. Ver uma estrada pronta. Um aluno formado….

Quantas lembranças cabem em uma vida?

Nos tempos de inundação, estes de dias que só sabem chover,  as lembranças são tiradas do lugar, elas ficam perdidas sem saber onde morar. A chuva forte derruba as folhas, encharca os jardins e os sons das risadas e das conversas se silencia diante do torrencial aguaceiro, que encharca nossa alma.  Os nossos lutos são inundações profundas e silenciosas….

Por muitos anos vivi em luto.É difícil falar, quando envolve a nós mesmos. Como se uma parte nossa tivesse partido também. Ou talvez, um todo.Poucas pessoas entendem e mesmo os que compreendem, esperam força ou uma atitude de fé, mas as vezes, estar morto em vida, exige uma ressurreição tipo a de Lázaro, para nos fazer acordar de uma vida já não está mais ali.

O que significa estar vivo? Ter um coração  e um cérebro pulsando certo? Mas eu diria que muitos mesmo em vida estão mortos e muitos mortos mesmo já a muito tempo sepultados continuam fazendo história. Hoje coincidentemente é véspera de finados, o dia dos mortos. Como um baque lembrei, que hoje é dia 1 de novembro é aniversário de morte de um luto que vivi por muitos e muitos anos. Não lembrei o dia todo, ou esqueci?

Falar deste dia mé me remeter a inundação que mudou pra sempre minha vida e foram anos de chuva sem fim. Lembro que em terapia várias vezes construir cenários, tentando tirar o peso daquela inundação que vivia dentro de mim. Era como se eu vivesse com meus rios internos em transbordo e com necessário controle para que eles não vertesse pelos olhos.  Os anos de inundação foram difíceis.  Foram eles que me trouxeram pra dentro de mim. Como se eu sempre estivesse à margem de mim mesma. Buscando um pedaço de um telhado, de uma árvore, de um dia, um  pedaço de mim, que eu nunca mais conseguia achar. Lembram: as inundações tiram tudo do lugar.

Os anos de inundação chegaram e arrastaram tudo. Meu trabalho, meus amigos, minha certeza que o mundo seria um lugar melhor. Perdi em um curto espaço de tempo a melhor amiga de infância e o pior, estávamos sem nos falar a alguns anos por discussão de adolescente. O primeiro dia de vento forte daqueles tempos, foi gelado e duro.. Eu não sabia e nem fazia ideia, que pessoas jovens, filhos, com namorados, recém formados também partem. Eles partem. Não houve palavra que eu conseguisse dizer. Neste dia a chuva foi tão forte que me emudeceu, por algum tempo.

Naquele dia, um rio dentro de mim alagou minha alma. Tive que pedir desculpas em silêncio. Depois disso. Sempre perdão. Sempre. E neste dia o período de indicação se anunciou. Ano após ano daquele período vi amigos partindo, mães de amigos, filhos de amigos, amigos e de repente meu coração inundou de verdade. Como se eu não conseguisse abrir os olhos de tanta chuva.

A chuva não deixava mais ver o futuro. As pessoas nos cativam. Veem o melhor da gente, antes da gente. Nos acendem as luzes e abrem  nossas janelas, mesmo que a gente nem saiba que janelas existem ali. E como aceitar que justo elas que acreditam em você, que veem o seu melhor, não vai mais estar aqui. E é tão egoísta sofrer por não termos mais uma conversa sobre guerra, um chimarrão às 22h ou por o mundo perder um político que te ensina que existem políticos bons, que as pessoas podem e devem ter uma boa auto estima por que não são os políticos que mudam o mundo, são as pessoas. Ou porque uma brilhante professora não ensinará os alunos sobre o futuro….

Até hoje me pego corrigindo as pessoas que falam mal de políticos, porque no meu coração ficou forjado com “ferro quente”  valores de amor, altruísmo e competência que a boa política pode fazer pelas pessoas. A maturidade e os anos de inundação foram permitindo a germinação de uma terra que eu não irrigava, a da minha alma. E aos poucos no lugar do aguaceiro,  vi crescer sementes lindas eu não teria, se não fosse pelo preparo da terra. E Então, me vi diante de um tesouro – um coração grato cheio de estrelas gigantes.

A tolerância,  gratidão,  generosidade, alegria das boas lembranças e o mais importante, a consciência do momento,que as pessoas que cumprem seu legado ficam vivas dentro de nós, através desse jardim colorido de boas memórias, mesmo que sua presença física aqui não esteja mais.

Aqueles que nos chacoalham a vida, que marcam nossa trajetória. Vivem para sempre. Às vezes as inundações chegam, o excessos dos rios internos transbordam pelos olhos, vertem pelo coração, criando canais de irrigação para sementes novas de amor, carinho e gratidão. Um dia passa, e quando a gente olha pra dentro, encontra um jardim colorido de memórias.

Se hoje estiver chovendo, abaixe a fronte, em algum momento o sol vai raiar, o luto se acomoda e no lugar da tristeza, nasce uma planta nova, chamada lembrança e ela faz o aguaceiro passar e a terra assentar, quando os dias de chuva voltar.

Em memória dos meus amigos, Jaqueline  e Gilmar.

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Marcela Muttoni: Que dó do urubu!

A vida inteira,  vejo a maioria das pessoas fazendo cara de nojo e repugnando o urubu. Que come restos, animais mortos. Tenho é pena de urubu, que precisa de restos pra viver. Triste sina tem esse ser, que na sua natureza foi forjado a não caçar, mas esperar o que sobrar para então a faxina executar.

É pelo cheiro da carniça que lá vai ele afoite, saciar a sua fome. De olfato bem apurado, o urubu fareja onde está a pre­sa. Em círculos no céu, vai baixando, peregrino. De todas as sentenças, talvez a mais fácil de julgar: caçador preguiçoso, comedor de sobras e carniças. De todas as sentenças da natu­reza, talvez a mais difícil de ser compreendida, ao invés de far­do, sina. Fácil olhar o que está somente a um palmo de nossos dedos de julgamento.

Até o urubu não escapa. Se não fosse ele, quanto mau cheiro… o que faria a natureza com os restos de seus mortos. Como deve ser bom ser beija-flor. Ou quem sabe andorinha. Passarinho. Mas ser urubu, isso é coisa pra fortes. E tem como escolher, o que se nasceu para ser.

Mas não se nasce o que se quer, se nasce o que se é. E alguns nascem urubus, não que isso seja má sorte, é vida. Nascem com missão divina, de não suportar outro sabor, se não o da dor. O urubu não sabe comer se não o que nasceu para fazer. Pobre sina peregrina, essa do urubu, de não conhecer o sabor de um mundo de cor.

Assim também somos nós. No nosso dia-a-dia, muitos são os urubus que realizam a faxina de nossas vidas. O mundo sempre deixa restos. Restos de dias, de planos, restos de sonhos, restos de relações, e lá correm urubus se alimentar do que está ali a secretar. E é desses restos que muitos “urubus” vão se alimen­tando, crescendo, vivendo.

Felizes ao redor da pobre vítima já a se dizimar, e o urubu a avistar, lá do alto, sem os olhos soltar. Sente o cheiro de podri­dão a lhe chamar. E ele não sabe sentir cheiro de flor só de dor. Chega devagar, depois averigua a certeza da morte, e assim aos poucos arranca pedaços daquele que agora é prato seu.

Muitos dos urubus do nosso cotidiano dão uma mordidinha aqui, outras ali e assim vão nos tirando às vezes,  a última gota de vontade de levantar e correr.

Para não sofrer, se sucumbe a falta de esperança do cerco, se fecha os olhos e vira então mais uma vítima da fome desse afoite. Pobre urubu, triste é a sua sina, de viver dos restos, de viver do que não corre, de viver do que não luta, de viver do que lhes deixam, de viver da desven­tura de outro ser.

Alegria de urubu é mesa cheia. Quantos restos pra sua ceia. De restos que ele vive, outros ali, mal conseguem perto chegar. A escolha e sina dos urubus deixa cheiro por onde passam, in­feta sua pelagem e ele longe vive. Viver de restos tem um preço.

Pobre urubu se soubesse que infesta tudo por onde passa. Fácil é vida de passarinho cantador, fácil é vida de bem-te-vi que nasce bunitinho. Para quem nasce feio e com gosto pra dor, viver do que sobra dos outros é ate conformador. Ai que dó urubu, pra quem nasceu urubu jamais será beija flor.

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