A 2ª Vara Judicial da Comarca de Gramado condenou o empresário Hilário Krauspenhar, proprietário e fundador de uma rede de hotéis de Gramado e Canela, pelo crime de injúria racial. A decisão, proferida no final de fevereiro, estabelece uma pena de dois anos e nove meses de reclusão, substituída por prestação de serviços à comunidade e o pagamento de 10 salários-mínimos.
Nota: A Lei 14.532/2023 equiparou a injúria racial ao crime de racismo no Brasil, tornando-a inafiançável e imprescritível. Agora, ofender a honra de alguém com base em raça, cor, etnia ou origem é punido com reclusão de 2 a 5 anos, não prescrevendo nunca e não permitindo pagamento de fiança, sendo tratado com a mesma gravidade do racismo.
O caso ocorreu em novembro de 2023, enquanto a vítima trabalhava como recepcionista em um restaurante localizado no bairro Planalto em Gramado. Segundo os autos, o empresário teria comparado o funcionário a um macaco e proferido ofensas relacionadas ao seu cabelo. O trabalhador registrou o boletim de ocorrência no dia seguinte ao episódio e relatou ter sofrido retaliações, como a transferência para tarefas de limpeza, antes de ser desligado do estabelecimento em fevereiro de 2024.
O choque e a tentativa de intimidação
O crime ocorreu por volta da meia-noite de 29 de novembro de 2023. Em entrevista exclusiva ao Acontece Gramado, a vítima, Marco Lima, descreve um cenário de humilhação pública e absoluta falta de suporte no momento da agressão.
“Foi tão chocante que demorei alguns momentos para entender. Ele manteve a postura e riu de mim. Eu estava ao lado da gerente do bar; ela notou o constrangimento, mas não tomou nenhuma atitude. Muita gente me disse depois que teria revidado ou agredido, mas ninguém sabe a reação que vai ter ao passar por isso. Fiquei em choque”, relembra Marco Lima.
Imediatamente após o turno, ele se dirigiu à Delegacia de Polícia Civil no bairro Carniel, que encontrou fechada. Após ser atendido e realizar o boletim de ocorrência (BO), comunicou o fato aos proprietários do restaurante onde trabalhava. O que deveria ser o início de um processo de justiça, contudo, transformou-se, segundo a vítima, em uma sucessão de tentativas de silenciamento.
A “peregrinação” nas delegacias e a tentativa de arquivamento
Marco relata que, nos dias seguintes, a gerência do estabelecimento tentou convencê-lo a “pensar bem” sobre a denúncia, chegando a ofertar advogados para mediar a situação. Em 3 de janeiro de 2024, ele afirma ter sido levado por representantes da empresa à Delegacia de Polícia do bairro Planalto para um encontro que descreve como intimidador.
Neste local, segundo ele, uma mulher identificada como escrivã da Polícia, teria sugerido que o caso fosse resolvido de maneira extrajudicial. “O tom era intimidador. Ouvi frases como: ‘Sua vida vai ser muito difícil aqui’, ‘As pessoas vão ficar do lado dos patrões’ e ‘Ele é uma pessoa muito influente’”, revela o entrevistado.

Segundo ele, o que considera mais grave foi a descoberta de um erro no BO original feito no Carniel: o documento registrava que ele não desejava representação criminal contra o réu, o que arquivaria o caso sem julgamento.
Ao tentar retificar o erro na delegacia, recebeu uma negativa da escrivã e a orientação de procurar um advogado particular. A justiça só começou a avançar quando ele recorreu à Defensoria Pública, que aceitou a denúncia para os processos civil e criminal.
O Acontece procurou a Delegacia de Polícia Civil de Gramado para comentar sobre os fatos trazidos pela vítima nesta reportagem.
Segundo a delegada Polícia Civil de Gramado, Fernanda Aranha, “remetemos este procedimento com o indiciamento do empresário e os fatos foram devidamente apurados pela Polícia Civil”, disse. Sobre a mulher citada, a delega esclarece: “Não se trata de uma escrivã, mas sim uma funcionária municipal cedida que não está mais trabalhando conosco”, finalizou.
O “Pacto da Branquitude” e o desemprego forçado
A demissão do restaurante onde aconteceu o caso da injúria racial ocorreu em 18 de fevereiro de 2024, após o que ele define como uma “pressão insustentável”. O impacto em sua vida profissional foi imediato e devastador:
- Dois anos de desemprego: Mesmo com boa performance em entrevistas, ele sentia que as portas se fechavam assim que seu nome era associado ao caso.
- Isolamento social: “Muita gente se afastou de mim”, relata, mencionando que sobreviveu fazendo trabalhos temporários (“extras”) enquanto acompanhava cada passo do processo.
- Ausência de retratação: Em nenhum momento, desde 2023, o empresário ou sua defesa o procuraram para um pedido de desculpas.
O Acontece procurou os proprietários do restaurante onde são relatados os fatos. Até a publicação desta matéria não recebemos retorno. O espaço segue aberto.
Enfrentamento institucional
Para a vítima, o caso não se encerra com a sentença de Hilário Krauspenhar. Ele levou o relato de má conduta policial à Comissão de Segurança Pública do Estado, visando apurar a atuação das delegacias de Gramado e da escrivã envolvida.
“É preciso conscientizar as pessoas de que existe na sociedade um ‘pacto da branquitude’. Estamos à mercê das engrenagens deste pacto. O racismo foi colocado em um local de normalidade por órgãos que deveriam nos proteger, não nos dando chance nem de lutar”, afirma.
Aos 39 anos, ele reforça a necessidade de a cidade refletir sobre suas políticas públicas para a população preta. “Precisamos enfrentar o racismo minuto a minuto, corrigindo expressões e nos indignando pela falta de representatividade. O que aconteceu comigo não é isolado.”
Marco completa seu relato dizendo que recebeu muitas mensagens de pessoas dizendo que ele queria se auto promover e coisas do tipo, mas como vem de movimentos sociais há muito tempo se sentiu mais preparado para enfrentar todo o contexto adverso mesmo sentindo medo constante.
Atualmente Marco foi integrado, há dois anos, ao Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos do Estado do Rio Grande do Sul com acompanhamentos de segurança, psicológico e outros suportes que possam ser necessários.
Como outra frente, Marco criou, junto à Comissão de Segurança Pública e o Sindicato da Hotelaria e Gastronomia de Gramado um guia prático de conduta anti-racista. O guia pode ser acessado através do instagram de Marco @misterblackmarco.
“O apoio da Comissão de Segurança Pública, do Sindicato, da Defensoria e do coletivo Sankofa foram primordiais e fundamentais em todo este caso, finaliza Marco.
Fundamentos da sentença
A magistrada Aline Rissato, responsável pela decisão, destacou a gravidade das circunstâncias, apontando que as agressões foram proferidas em razão da condição de proprietário do prédio onde a vítima atuava. Em sua fundamentação, a juíza afirmou:
“As consequências do delito prejudicaram gravemente o réu, tendo em vista que o delito foi consumado no ambiente de trabalho e, meses após, a vítima foi desligada do estabelecimento. A vítima, com seu comportamento, em nada colaborou para o delito.”
A juíza pontuou ainda que a ocorrência das ofensas restou comprovada de modo inequívoco pelos depoimentos colhidos. “Além de segura e coerente, a palavra da vítima encontra-se corroborada pelos depoimentos das testemunhas”, completou a magistrada, citando que o réu chegou a proferir ameaças de morte caso a vítima estivesse próxima à sua residência.
Posicionamento da defesa
O empresário permaneceu em silêncio durante suas declarações no processo. Até o fechamento desta matéria, a defesa de Hilário Krauspenhar não foi localizada e não respondeu os contatos para se manifestar sobre a condenação nem via e-mail e nem via contatos telefônicos. O espaço segue aberto.
Cabe recurso à decisão da Justiça gramadense.















Como o empresário não teve a coragem de pedir desculpas , deveria no mínimo ficar um ano na cadeia. A justiça local também deve verificar melhor quem de fato são funcionários honestos.
10 salarios minimos é um absurdo para o que deveria pagar
Não existe novidade no assunto sobre o tratamento recebido pela vítima, seja no ambiente de trabalho como nas instituições governamentais, existe uma rede de proteção aos “senhores de engenho” que, pela posição social, se escondem atrás do “escudo” financeiro e são acobertados por serviçais públicos, que em tese, deveriam estar punindo essa postura racista, mas tentam intimidar a vítima com o famoso “veja bem, vc é pobre e precisa do emprego, ele é rico”, esperamos que Gramado seja realmente diferenciado, faça deste fato um exemplo, e se cumpra ao máximo rigor da lei, para que, pessoas como este “empresário”, saiba que as leis e a constituição brasileira, se aplica a todos igualmente.
Que reportagem honesta e corajosa. Esse cara é um grande exemplo pra cidade. Os blogs dos SEMIJORNALISTAS de Gramado, Miron, Gerson e Caique, nem pra mencionar. E a nossa RBS, GZH? Nenhuma citação dessa mídia que rouba e coage junto com a meia dúzia de famílias que se acham donas da cidade, mas são o verdadeiro nome de ESCROTIDÃO.